jueves, 15 de marzo de 2012

Ambrose Gwinnett Bierce (Ohio,June 24, 1842 – after December 26, 1913)


                  AMBROSE BIERCE   (Ohio,June 24, 1842 – after December 26, 1913)




                                         Ambrose Bierce por J. H. E. Partington (1844–1899) ,fecha desconocida

O DEDO MÉDIO DO PÉ DIREITO

 (Ambrose Bierce)

 1

Sabe-se que a velha mansão Manton é assombrada. Pessoa alguma de mentalidade aberta duvida disso. A incredulidade restringe-se a esses indivíduos de opinião que ainda serão chamados de excêntricos tão logo a palavra penetre nos recessos intelectuais do Marshall Progressista. A evidência de que a casa seja assombrada é de dois tipos: o parecer de testemunhas desinteressadas, que alegam provas oculares, e aquele da própria casa. O primeiro pode até ser dispensado ou tratado com os vários níveis de objeção que os mais engenhosos costumam evocar nesses casos. Mas fatos que concernem à observação de todos são materiais e controláveis.

 Em primeiro lugar, a mansão Manton não tem sido ocupada por mortais há mais de dez anos, e suas fachadas se acham em lento estado de deterioração – uma circunstância que, por si mesma, os judiciosos não se atreverão a ignorar. Situa-se um pouco fora da extremidade mais solitária da estrada que liga Marshall a Harriston, num descampado que um dia foi uma fazenda e que se acha agora desfigurado pelas ruínas de uma cerca apodrecida e meio coberta pelos espinheiros que infestam um solo pedregoso há muito esquecido pelo arado. A casa mesma se encontra num estado tolerável de conservação, embora muito manchada pelo tempo e a carecer dos cuidados de um vidraceiro – a população masculina menor da região tendo atestado, à sua maneira, certa desaprovação quanto ao fato de haver ali uma residência sem residentes. De formato quase quadrado, tem dois pavimentos e a entrada cortada por um portal que, de cada lado, uma janela de rótulas altas guarnece. Janelas correspondentes na parte de cima, não protegidas por rótulas de madeira, permitem a entrada de luz nos cômodos do pavimento superior. Grama e ervas crescem livremente por toda parte e algumas árvores copadas, que canalizam o vento, e todas inclinadas numa só direção, parecendo fazer um esforço conjunto para fugir. Em suma, como o humorista de Marshall explicou nas colunas do Progressista, “a proposição de que a mansão Manton é assombrada é a única conclusão lógica das premissas”. O fato de que, nessa casa, o sr. Manton julgou por bem, certa noite, se levantar da cama e cortar as gargantas de sua esposa e de seus dois filhos pequenos, mudando-se em seguida para outra parte do país, ajudou sem dúvida a despertar a atenção do público para a perfeita adequação do lugar aos fenômenos sobrenaturais.

 A essa casa, numa tarde de verão, chegaram quatro homens numa carroça. Três deles apearam imediatamente, e o que conduzia a carroça amarrou o cavalo ao único mourão remanescente do que fora outrora uma cerca. O quarto permaneceu na carroça.

 – Venha – disse um dos companheiros, aproximando-se dele, enquanto os outros se afastavam em direção à casa. – Este é o lugar.

 O interpelado não se moveu.

 – Por Deus – disse rudemente –, isso é uma peça, e me parece que vocês estão preparando alguma.

 – Talvez eu esteja – o outro disse, olhando-o no rosto e falando num tom que continha uma ponta de desprezo. – Você se lembrará, porém, de que a escolha do lugar foi deixada, com o seu próprio assentimento, para o oponente. Obviamente, se está com medo de fantasmas...

 – Não estou com medo de nada – o homem interrompeu com uma praga, e saltou para o chão.

 Os dois então se juntaram aos outros na porta, que, com dificuldade, devido à ferrugem da fechadura e das dobradiças, já tinha sido aberta por um deles. Entraram. Estava escuro por dentro, mas o homem que destrancara tirou do bolso uma vela e fósforos e acendeu uma luz. Então, destrancou uma porta à direita, enquanto os outros aguardavam. Isso lhes permitiu entrar num cômodo amplo, quadrado, que a vela iluminou precariamente. Uma camada espessa de poeira cobria o piso, abafando em parte o ruído de seus passos. Havia teias de aranha por todos os cantos, pendentes do teto como longas tiras podres que fizessem movimentos ondulatórios no ar perturbado. O cômodo tinha duas janelas em ângulos adjacentes, mas através delas nada se podia avistar senão a madeira interna dos pranchões, a poucas polegadas do vidro. Não havia lareira, nem mobília. Não havia nada, a não ser teias de aranha e poeira. Os quatro homens eram os únicos objetos ali que não faziam parte da estrutura.

 Pareciam bem estranhos à luz amarelada da vela. Aquele que apeara com relutância era singularmente espetacular – poderia mesmo ser chamado de sensacional. De meia idade e compleição robusta, o peito fundo e os ombros largos, olhando-se para a sua figura se diria que tinha a força de um gigante; e, olhando-se para sua aparência, que a usaria como um gigante. Estava barbeado, os cabelos cinzentos aparados rente ao crânio. Sua testa baixa era vincada de rugas em cima dos olhos, rugas que se tornavam verticais ao redor do nariz. As pesadas sobrancelhas negras seguiam o mesmo padrão, exceto ao se curvarem para cima no que, de outro modo, teria sido seu ponto de contato. Afundados por baixo bruxuleavam dois pares obscuros de olhos de cor incerta, mas certamente pequenos. Havia qualquer coisa de ameaçadora na sua expressão, a qual não era ajudada pela boca cruel e pelo queixo largo. O nariz parecia bem, como qualquer nariz, até porque não se espera muito de narizes. Tudo o que havia de sinistro na face desse homem parecia acentuado por uma palidez desumana: era como se ele fosse totalmente exangue.

 A aparência dos outros era bastante comum: tratava-se de pessoas que podemos encontrar por aí e esquecer que encontramos. Todos eram mais jovens do que o homem descrito, que aparentemente não mantinha boas relações com o mais velho dos três, o qual permanecia à parte. Evitavam olhar-se um ao outro.

 – Cavalheiros – disse o homem que segurava a vela e as chaves –, acho que tudo está bem. Está pronto, sr. Rosser?

 O homem que se afastara do grupo acenou com a cabeça e sorriu.

 – E você, sr. Grossmith?

 O pesadão acenou também, com uma carranca.

 – Façam a gentileza de removerem seus trajes exteriores.

 Chapéus, paletós, coletes e lenços foram tirados e jogados através da porta, no vestíbulo. O homem da vela fez um sinal com a cabeça, e o quarto – aquele que incitara Grossmith a deixar a carroça – sacou do bolso de seu sobretudo duas longas facas de caça, de aparência mortífera, que extraiu das bainhas de couro.

 – São exatamente iguais – disse, estendendo uma para cada um dos protagonistas; pois, a essa altura, até o mais obtuso observador já teria entendido a natureza do encontro. Ia acontecer um duelo de morte.

 Cada contendor apanhou uma faca, examinou-a com cuidado à luz da vela e testou a resistência da lâmina e do cabo contra o joelho erguido. Suas pessoas foram examinadas em seguida, cada uma por sua vez, pelo auxiliar do oponente.

 – Se lhe apraz, sr. Grossmith – disse o homem que segurava a luz –, faça o favor de ir posicionar-senaquele canto.

 Indicou o ângulo do cômodo mais distante da porta, para o qual Grossmith se retirou, seu auxiliar se afastando também com um aperto de mão que nada tinha de cordial. No ângulo mais próximo à porta, o sr. Rosser se colocou de pé; e, após uma consulta cochichada, seu auxiliar o deixou para se juntar ao outro perto da porta. Nesse momento a vela se apagou bruscamente, deixando-os na mais profunda escuridão. Isso poderia ter sido causado pelo deslocamento de ar da porta aberta. Qualquer que fosse a causa, o efeito foi assustador.

 – Cavalheiros – disse uma voz que soou estranha naquela nova situação, que afetava as relações entre os sentidos –, cavalheiros, não se movam enquanto não tenham ouvido a porta externa se fechando.

 Seguiu-se um som de passos, e então a porta interna se fechou. E finalmente a porta externa bateu com um estrondo que abalou todo o edifício.

 Alguns minutos mais tarde, o filho de um fazendeiro, que passava por ali a desoras, avistou uma carroça leve que disparava furiosamente em direção à cidade de Marshall. Declarou que atrás das duas figuras do acento frontal havia uma terceira, de pé, com as mãos agarradas aos ombros curvos dos outros, os quais pareciam lutar em vão para se livrarem desse aperto. Essa figura, ao contrário das outras, se vestia de branco, e teria sem dúvida subido na carroça quando ela passou pela casa assombrada. Como o garoto podia se gabar de considerável experiência anterior com o sobrenatural local, sua palavra pesou como o testemunho de uma autoridade. A história (em conexão com os eventos do dia seguinte) apareceu até no Progressista, com ligeiros retoques literários e uma declaração conclusiva de que os referidos cavalheiros teriam permissão de usar as colunas do jornal para exporem sua própria versão da aventura noturna. Mas esse privilégio nunca foi demandado.

 2

 Os eventos que culminaram nesse “duelo no escuro” foram bastante simples. Numa certa tarde três rapazes da cidade de Marshall estavam sentados num canto sossegado da varanda do hotel do vilarejo, fumando e discutindo esses assuntos que três rapazes educados de um lugarejo do sul considerariam naturalmente interessantes. Seus nomes eram King, Sancher e Rosser. A uma distância que lhe permitia ouvir, mas sem tomar parte na conversa, sentava-se um quarto. Os outros não o conheciam. Apenas sabiam que, ao chegar na diligência naquela tarde, tinha anotado no registro do hotel o nome de Robert Grossmith. Parece não ter falado com ninguém a não ser com o funcionário do hotel. Dava mostras de não apreciar nenhuma companhia a não ser a de si mesmo – ou, como se expressou a equipe do Progressista, “amplamente dado às más sociedades”. Mas, para sermos justos, seria preciso dizer, quanto ao forasteiro, que a equipe estaria, ele mesmo, muito pouco inclinado a julgar com isenção alguém que tivesse opiniões diferentes, principalmente depois de ter experimentado uma pequena decepção em sua tentativa de obter uma “entrevista”.

 – Odeio qualquer tipo de deformidade numa mulher – disse King –, seja natural ou... adquirida. Tenho uma teoria de que a todo defeito físico corresponde o equivalente defeito moral e mental.

 – Infiro, pois – disse Rosser gravemente –, que uma senhora a quem falte a superioridade moral de um nariz estaria em maus lençóis se quisesse tornar-se a sra. King.

 – É, pode-se colocar dessa maneira – foi a resposta. – Mas, no duro, uma vez joguei fora uma garota das mais atraentes só porque descobri, acidentalmente, que ela tinha sofrido a amputação de um dedo do pé. Minha atitude foi brutal, caso você queira; porém, se eu tivesse me casado com aquela moça, teria me tornado infeliz para o resto da vida, e a teria feito infeliz também.

 – Ao passo que – disse Sancher, com uma curta risada –, casando-se com um cavalheiro de opiniões mais liberais, ela escapou com uma garganta cortada.

 – Ah, você sabe a quem me refiro. Sim, casou-se com Manton, mas nada sei sobre sua liberalidade. Não tenho certeza, mas ele cortou a garganta dela ao descobrir que lhe faltava aquela coisinha  excelente da mulher, que é o dedo médio do pé direito.

 – Olhem para esse cara! – disse Rosser, em voz baixa, os olhos fixos no forasteiro.

 “Esse cara” estava, obviamente, ouvindo com atenção a conversa.

 – Que impudência! – murmurou King. – Que faremos?

 – Muito fácil – Rosser respondeu, levantando-se. – Senhor – continuou, dirigindo-se ao forasteiro –, penso que seria melhor que você removesse sua cadeira para o outro extremo da varanda. A presença de cavalheiros não é, com certeza, uma situação a que esteja familiarizado.

 O homem saltou da cadeira e avançou com as mãos crispadas, as faces brancas de raiva. Todos se colocaram de pé. Sancher deu um passo e ficou entre os dois.

 – Você é precipitado e injusto – disse a Rosser. – Este cavalheiro nada fez para merecer tal linguagem.

 Mas Rosser se recusou a retirar suas palavras. Pelos costumes da região naquela época, só uma conseqüência seria possível para a quizília.

 – Exijo a satisfação devida a um cavalheiro – disse o estranho, que se acalmara um pouco. – Não conheço ninguém nesta região. Talvez você, senhor – e acenou com a cabeça para Sancher – fará a gentileza de me representar nesta questão.

 Sancher aceitou o encargo, com alguma relutância, admitamos, pois a aparência e as maneiras do homem não eram inteiramente do seu agrado. King, que durante a conversa mal tirara os olhos do estranho, e que não dissera palavra, consentiu, num aceno, em auxiliar Rosser. E o desfecho foi que, ao se retirarem os protagonistas, um encontro ficou combinado para a próxima noite. A natureza dos procedimentos já estava estabelecida. O duelo de facas num cômodo escuro terá sido certa vez um aspecto mais comum da vida do sudoeste do que poderá voltar a ser algum dia. E o quanto era fina a camada do verniz “cavalheiresco” que recobria a brutalidade essencial do código a partir do qual tais encontros se tornavam possíveis é o que veremos a seguir.

 3

 À forte luminosidade de um entardecer de verão, a velha mansão Manton mal se poderia conservar fiel às suas tradições. Era da terra – terrena. O brilho do sol acariciava-a calorosa e apaixonadamente, com evidente desprezo por sua má reputação. A grama verde que se esparramava à sua frente parecia crescer não desgrenhada, mas com exuberância natural e feliz, e as ervas floriam como plantas ornamentais. Repletas de luzes atraentes e de sombras e de pássaros de vozes agradáveis, as árvores copadas não mais lutavam para fugir, mas se curvavam com reverência sob seu fardo de sol e de cantorias. Mesmo nas janelas superiores, que não tinham vidros, havia uma expressão de paz e contentamento, proveniente da luz do interior. Através dos campos pedregosos o calor visível dançava com vivo tremor, incompatível com a gravidade que se atribui ao sobrenatural.

 Esse era o aspecto sob o qual o lugar se apresentou ao xerife Adams e aos dois homens que tinham vindo de Marshall para dar uma olhada nele. Um desses homens era o sr. King, o auxiliar do xerife; o outro – que se chamava Brewer – era um dos irmãos da falecida sra. Manton. Com base numa benéfica lei do Estado, relativa às propriedades que, tendo sido abandonadas durante algum tempo por donos cuja residência não se pôde localizar, o xerife era o responsável legal pela fazenda Manton e pelas benfeitorias a ela pertencentes. Sua visita atual era apenas para cumprir certa ordem da corte, perante a qual o sr. Brewer litigava a posse da propriedade, na condição de herdeiro de sua irmã doente. Por mera coincidência, a visita foi feita no dia seguinte ao da noite em que o auxiliar King destrancara a casa para um outro e bem diferente propósito. Agora, sua presença ali não era um ato de escolha: tivera ordens de acompanhar seu superior e, no momento, não podia pensar em nada mais prudente do que uma simulada alacridade em obediência ao mandado.

 Abrindo com descuido a porta da frente, que para sua surpresa não estava trancada, o xerife espantou-se de ver, sobre o piso do vestíbulo para o qual ela dava entrada, um amontoado confuso de roupas masculinas. O exame mostrou que consistia de dois chapéus e o mesmo número de paletós, de coletes e de lenços, todos em ótimo estado de conservação, não obstante um pouco sujos da poeira em que jaziam. O sr. Brewer também ficou espantado, mas as emoções do sr. King permaneceram misteriosas. Com um renovado interesse em suas próprias ações, o xerife agora destrancava e empurrava a porta à direita, e os três entraram. O cômodo estava aparentemente vazio – não: quando seus olhos se acostumaram à fraca luminosidade, alguma coisa se tornou visível no ângulo oposto da parede. Era uma figura humana – a figura de um homem agachado a um canto. Qualquer coisa na sua atitude fez os intrusos estacaram logo que cruzaram os umbrais. A figura se definiu cada vez mais. O homem se apoiava sobre um joelho, as costas apertadas contra o ângulo das paredes, os ombros erguidos até o nível das orelhas, as mãos diante do rosto, palmas para diante, os dedos abertos e crispados como garras. A face pálida estava voltada para cima, sobre o pescoço contraído, com uma expressão de indizível medo, a boca aberta, os olhos arregalados. Estava morto. No entanto, com exceção da faca de caça, que certamente teria caído de sua mão, não havia nenhum outro objeto no cômodo.

 Sobre a poeira grossa que cobria o piso havia algumas pegadas confusas próximo à porta e acompanhando a parede em que esta se abria. Também ao longo de uma das paredes adjacentes, até para além das janelas cobertas por tábuas, se via a trilha feita pelas pegadas do homem antes de chegar àquele canto. Instintivamente, ao se aproximarem do corpo, os três homens seguiram a trilha. O xerife agarrou um dos braços estendidos: estava rígido como ferro, e a aplicação de um pouco de força fez todo o corpo girar sem alterar a relação entre as partes. Brewer, pálido de excitação, olhava atentamente para a face contorcida.

 – Deus de misericórdia! – gritou de repente. – É Manton!

 – Você tem razão – disse King, numa mal disfarçada tentativa de acalmar. – Eu conhecia Manton. Usava barba cheia e cabelos compridos na época, mas é ele.

 Poderia ter acrescentado: “E eu o reconheci quando desafiou Rosser. Contei a Rosser e a Sancher quem ele era, antes de lhe pregarmos esta peça horrível. Quando Rosser deixou este cômodo escuro atrás de nós, esquecendo suas roupas de tão excitado e se pondo a caminho, junto conosco, em mangas de camisa – durante todos esses eventos sabíamos quem era e com quem estávamos lidando, esse assassino covarde!”

 Mas o sr. King não disse nada disso. Com o máximo esforço, tentava penetrar no mistério da morte desse homem. Que não tivesse se afastado do canto onde estacionara; que sua postura não era nem de ataque nem de defesa; que tinha deixado cair a arma; que, obviamente, perecera devido ao profundo horror a qualquer coisa que viu – essas eram circunstâncias que a perturbada inteligência do sr. King não podia articular totalmente.

 Tateando na escuridão intelectual por uma pista que conduzisse para fora de seu labirinto de dúvidas, seu olhar, dirigido mecanicamente para baixo, como acontece quando ponderamos sobre assuntos graves, caiu por acaso sobre alguma coisa que, à luz do dia e na presença de companheiros vivos, o encheu de terror. No pó que se acumulara durante anos sobre o piso, partindo da porta pela qual eles entraram, atravessando o cômodo e parando à distância de uma jarda do cadáver agachado de Manton, havia três linhas paralelas de pegadas – leves mas bem definidas impressões de pés descalços; as exteriores, de crianças pequenas; as interiores, de uma mulher. Do ponto onde cessavam elas não retornavam: apontavam todas numa só direção. Brewer, que as notara no mesmo instante, se inclinou para a frente, pálido, numa atitude de absorção enlevada.

 – Olhem para isso! – gritou, apontando com ambas as mãos para a pegada mais próxima, do pé direito da mulher, no ponto onde ela aparentemente tinha parado. – Falta o dedo médio. É Gertrude!

 Gertrude era a falecida sra. Manton, irmã do sr. Brewer.

 Bierce, Ambrose-(Traduzido por Renato Suttana)

                                     Ambrose Bierce-Biografia
 
http://www.arquivors.com/biercecontos.htm

http://www.youtube.com/watch?v=P2seVsM7Fy8&feature=youtu.be

 El Puente Sobre el Río del Buho

 Desde un puente de ferrocarril, en el norte de Alabama, un hombre miraba correr rápidamente el agua veinte pies más abajo. El hombre tenía las manos detrás de la espalda, las muñecas atadas con una cuerda; otra cuerda anudada al cuello y amarrada a un grueso tirante por encima de su cabeza, pendía hasta la altura de sus rodillas. Algunas tablas flojas colocadas sobre los durmientes que soportaban los rieles le prestaban un punto de apoyo a él y a sus ejecutores -dos soldados rasos del ejército federal bajo las ordenes de un sargento que, en la vida civil, debió de haber sido sub comisario. No lejos de ellos, en la misma plataforma improvisada, estaba un oficial del ejército llevando las insignias de su grado. Era un capitán. En cada extremo había un centinela presentando armas, o sea con el caño del fusil por delante del hombro izquierdo y la culata apoyada en el antebrazo cruzado transversalmente sobre el pecho, posición poco natural que obliga al cuerpo a mantenerse erguido. A estos dos hombres no parecía concernirles lo que ocurría en medio del puente. Se limitaban a bloquear los extremos de la plataforma de madera.
Delante de los centinelas no había nada a la vista; la vía férrea se internaba en un bosque a un centenar de yardas; después, trazando una curva, desaparecía. Un poco más lejos, sin duda, estaba un puesto de avanzada. En la otra orilla, un campo abierto subía en suave pendiente hasta una empalizada de troncos verticales con troneras para los fusiles y una sola abertura por la cual salía la boca de un cañón de bronce que dominaba el puente. A media distancia de la colina entre el puente y el fortín estaban los espectadores: una compañía de soldados de infantería, en posición de descanso, es decir con la culata de los fusiles en el suelo, el caño ligeramente inclinado hacia atrás contra el hombro derecho, las manos cruzadas sobre la caja. A la derecha de la línea de soldados estaba un teniente, con la punta del sable tocando tierra, la mano derecha encima de la izquierda. Excepto los tres ejecutores y el condenado en el medio del puente, nadie se movía. La compañía de soldados, frente al puente, miraba fijamente, hierática. Los centinelas, frente a las márgenes del río, podían haber sido estatuas que adornaban el puente. El capitán, con los brazos cruzados, silencioso, observaba el trabajo de sus subordinados sin hacer el menor gesto. Cuando la muerte anuncia su llegada debe ser recibida con ceremoniosas muestras de respeto, hasta por los más familiarizados con ella. Para este dignatario, según el código de la etiqueta militar, el silencio y la inmovilidad son formas de la cortesía.
El hombre que se preparaban a ahorcar podría tener treinta y cinco años. Era un civil, a juzgar por su ropa de plantador. Tenía hermosos rasgos: nariz recta, boca firme, frente amplia, melena negra y ondulada peinada hacia atrás, cayéndole desde las orejas hasta el cuello de su bien cortada levita. Usaba bigote y barba en punta, pero no patillas; sus grandes ojos de color gris oscuro tenían una expresión bondadosa que no hubiéramos esperado encontrar en un hombre con la soga al cuello. Evidentemente, no era un vulgar asesino. El liberal código del ejército prevé la pena de la horca para toda clase de personas sin excluir a las personas decentes.
Terminados sus preparativos los dos soldados dieron un paso hacia los lados, y cada uno retiró la tabla de madera sobre la cual había estado de pie. El sargento se volvió hacia el oficial, saludó, y se colocó inmediatamente detrás del oficial. El oficial, a su vez, se corrió un paso. Estos movimientos dejaron al condenado y al sargento en los dos extremos de la misma tabla que cubría tres durmientes del puente. El extremo donde se hallaba el civil alcanzaba casi, pero no del todo, un cuarto durmiente. La tabla había sido mantenida en su sitio por el peso del capitán; ahora lo estaba por el peso del sargento. A una señal de su jefe, el sargento daría un paso al costado, se balancearía la tabla, y el condenado habría de caer entre dos durmientes. Consideró que la combinación se recomendaba por su simplicidad y eficacia. No le habían cubierto el rostro ni vendado los ojos. Examinó por un momento su vacilante punto de apoyo y dejó vagar la mirada por el agua que iba y venía bajo sus pies en furiosos remolinos. Un pedazo de madera que bailaba en la superficie retuvo su atención y lo siguió con los ojos. Apenas parecía avanzar. ¡Qué corriente perezosa!
Cerró los ojos para concentrar sus últimos pensamientos en su mujer y en sus hijos. El agua dorada por el sol naciente, la niebla que pesaba sobre el río contra las orillas escarpadas no lejos del puente, el fortín, los soldados, el pedazo de madera que flotaba, todo eso lo había distraído. Y ahora tenía conciencia de una nueva causa de distracción. Borrando el pensamiento de los seres queridos, escuchaba un ruido que no podía ignorar ni comprender. Un golpe seco, metálico, que sonaba claramente como los martillazos de un herrero sobre el yunque. El hombre se preguntó que podía ser aquél ruido, si venía de muy cerca o de una distancia incalculable -ambas hipótesis eran posibles. Se reproducía a intervalos regulares pero tan lentamente como las campanas que doblan a muerte. Aguardaba cada llamado con impaciencia y, sin saber por qué, con aprensión. Los silencios se hacían progresivamente más largos; los retardos, enloquecedores. Menos frecuentes eran los sonidos, más aumentaba su fuerza y nitidez, hiriendo sus oídos como si le asestaran cuchilladas. Tuvo miendo de gritar... Lo que oía era el tic tac de su reloj.
Abrió los ojos y de nuevo oyó correr el agua bajo sus pies. "Si lograra libertar mis manos -pensó- llegaría a desprenderme del nudo corredizo y saltar al río; zambulléndome, podría eludir las balas; nadando vigorosamente, alcanzar la orilla; después internarme en el bosque, huir hasta mi casa. A Dios gracias, todavía está fuera de sus líneas; mi mujer y mis hijos todavía están fuera del alcance del puesto más avanzado de los invasores".
Mientras se sucedían estos pensamientos, aquí anotados en frases, que más que provenir del condenado parecían proyectarse como relámpagos en su cerebro, el capitán inclinó la cabeza y miró al sargento. El sargento dio un paso al costado.
II
Peyton Farkuhar, plantador de fortuna, pertenecía a una vieja y respetable familia de Alabama. Propietario de esclavos, se ocupaba de política, como todos los de su casta; fue, desde luego, uno de los primeros secesionistas y se consagró con ardor a la causa de los "Estados del Sur". Imperiosas circunstancias, que no es el caso relatar aquí, impidieron que se uniera al valiente ejército cuyas desastrosas campañas terminaron con la caída de Corinth, y se irritaba de esta sujeción sin gloria, anhelando dar rienda libre a sus energías, conocer la vida más intensa del soldado, encontrar la ocasión de distinguirse. Estaba seguro de que esa ocasión llegaría para el, como llega para todo el mundo en tiempos de guerra. Entretanto hacía lo que podía. Ningún servicio le parecía demasiado humilde para la causa del Sur, ninguna aventura demasiado peligrosa si era compatible con el carácter de un civil que tiene alma de soldado y que con toda buena fe y sin demasiados escrúpulos admite en buena parte este refrán francamente innoble: en el amor y en la guerra todos los medios son buenos.
Una tarde cuando Farkuhar y su mujer estaban sentados en un banco rústico, cerca de la entrada de su parque, un soldado de uniforme gris detuvo su caballo en la verja y pidió de beber. La señora Farkuhar no deseaba otra cosa que servirlo con sus blancas manos. Mientras fue a buscar un vaso de agua, su marido se acercó al jinete cubierto de polvo y le pidió con avidez noticias del frente.
- Los yanquis están reparando las vías férreas -dijo el hombre- porque se preparan para una nueva avanzada. Han alcanzado el puente del Búho, lo han arreglado y han construido una empalizada en la orilla norte. Por una orden que se ha fijado en carteles en todas partes, el comandante ha dispuesto que cualquier civil a quién se sorprenda dañando las vías férreas, los túneles o los trenes, deberá ser ahorcado sin juicio previo. Yo he visto la horca.
- ¿A qué distancia queda de aquí el puente del Búho? -preguntó Farkuhar.
- A unas treinta millas.
- ¿No hay ninguna tropa de este lado del río?
- Un solo piquete de avanzada a media milla, sobre la vía férrea, y un solo centinela de este lado del puente.
- Suponiendo que un hombre (un civil, aficionado a la horca) esquive el piquete de avanzada y logre engañar al centinela -dijo el plantador sonriendo-, ¿qué podría hacer?
El soldado reflexionó:
- Estuve allí hace un mes. La creciente del último invierno ha acumulado una gran cantidad de troncos contra el muelle, de este lado del puente. Ahora esos troncos están secos y arderían como estopa.
En ese momento la dueña de casa trajo el vaso de agua. Bebió el soldado, le dio las gracias ceremoniosamente, saludó al marido, y se alejó con su caballo. Una hora después, caída la noche, volvió a pasar frente a la plantación en dirección al Norte, de donde había venido. Aquella tarde había salido a reconocer el terreno. Era un soldado explorador del ejército federal.
III
Cuando cayó al agua desde el puente, Peyton Farkuhar perdió conciencia como si estuviera muerto. De aquél estado le pareció salir siglos después por el sufrimiento de una presión violenta en la garganta, seguido de una sensación de ahogo. Dolores atroces, fulgurantes, atravesaban todas las fibras de su cuerpo de la cabeza a los pies. Se hubiera dicho que recorrían las líneas bien determinadas de su sistema nervioso y latían a un ritmo increíblemente rápido. Tenía la impresión de que un torrente de fuego llevaba su cuerpo hasta una temperatura intolerable. Su cabeza congestionada estaba a punto de estallar. Estas sensaciones excluían todo pensamiento, borraban todo lo que había de intelectual en él: solo le quedaba la facultad de sentir, y sentir era una tortura. Pero se daba cuenta de que se movía; rodeado de un halo luminoso del cual no era más que el corazón ardiente, se balanceaba como un vasto péndulo según arcos de oscilaciones inimaginables. Después, de un solo golpe, terriblemente brusco, la luz que lo rodeaba subió hasta el cielo. Hubo un chapoteo en el agua, un rugido atroz en sus oídos, y todo fue tinieblas y frío. Habiendo recuperado la facultad de pensar, supo que la cuerda se había roto y que acababa de caer al río. Ya no aumentaba la sensación de estrangulamiento: el nudo corredizo alrededor de su cuello, a la par que lo sofocaba, impedía que el agua entrara en sus pulmones. ¡Morir ahorcado en el fondo de un río! Esta idea le pareció absurda. Abrió los ojos en las tinieblas y vio una luz encima de él, ¡pero de tal modo lejana, de tal modo inaccesible! Se hundía siempre, porque la luz disminuía cada vez más hasta convertirse en un pálido resplandor. Después aumentó la intensidad y compendió de mala gana que remontaba a la superficie, porque ahora estaba muy cómodo. "Ser ahorcado y ahogado -pensó-, ya no está tan mal. Pero no quiero que me fusilen. No, no habrán de fusilarme. Eso no sería justo".
Aunque inconsciente del esfuerzo, un agudo dolor en las muñecas le indicó que trataba de zafarse de la cuerda. Concentró su atención en esta lucha como un espectador ocioso podía mirar la hazaña de un malabarista sin interesarse en el resultado. Qué magnífico esfuerzo. Que espléndida, sobrehumana energía. Ah, era una tentativa admirable. ¡Bravo! Cayó la cuerda: Sus brazos se apartaron y flotaron hasta la superficie. Pudo distinguir vagamente sus manos de cada lado, en la luz creciente. Con nuevo interés las vio aferrarse al nudo corredizo. Quitaron salvajemente la cuerda, la arrojaron lejos, con furor, y sus ondulaciones parecieron las de una culebra de agua. "¡Ponedla de nuevo, ponedla de nuevo!" Le pareció gritar estas palabras a sus manos, porque después de haber deshecho el nudo tuvo el dolor más atroz que había sentido hasta entonces. El cuello lo hacía sufrir terriblemente; su cerebro ardía, su corazón, que palpitaba apenas, estalló de pronto como si fuera a salírsele por la boca. Una angustia intolerable torturó y retorció su cuerpo entero. Pero sus manos desobedientes no hicieron caso de la orden. Golpeaban el agua con vigor, en rápidas brazadas, de arriba abajo, y lo sacaron a flote. Sintió emerger su cabeza. La claridad del solo lo encegueció; su pecho se dilató convulsivamente. Después, dolor supremo y culminante, sus pulmones tragaron una gran bocanada de aire que inmediatamente exhalaron en un grito.
Ahora estaba en plena posesión de sus sentidos; eran, en verdad, sobrenaturalmente vivos y sutiles. La perturbación atroz de su organismo lo sabía de tal modo exaltado y refinado que registraban cosas nunca percibidas hasta entonces. Sentía los cabrilleos del agua sobre su rostro, escuchaba el ruido que hacía cada olita al golpearlo. Miraba el bosque en una de las orillas y distinguía cada árbol, cada hoja con todas sus nervaduras, y hasta los insectos que alojaban: langostas, moscas de cuerpo luminoso, arañas grises que tendían su tela de ramita a ramita. Observó los colores del prisma en todas las gotas de rocío sobre un millón de briznas de hierba. El bordoneo de los moscardones que bailaban sobre los remolinos, el batir de alas de las libélulas, las zancadas de las arañas acuáticas como remos que levantaban un bote, y todo eso era para él una música perfectamente audible. Un pez resbaló bajo sus ojos y escuchó el deslizamiento de su propio cuerpo que hendía la corriente.
Había emergido boca abajo en el agua. En un instante, el mundo pareció girar con lentitud a su alrededor. Vio el puente, el fortín, vio a los centinelas, al capitán, a los soldados rasos, sus ejecutores, cuyas siluetas se destacaban contra el cielo azul. Gritaban y gesticulaban señalándolo con el dedo. El oficial blandía su revolver pero no disparaba. Los otros estaban sin armas. Sus movimientos parecían grotescos y horribles; sus formas gigantescas. De pronto se oyó una nueva detonación breve y un objeto golpeó vivamente el agua a pocas pulgadas de su cabeza, salpicándole el rostro. Oyó una segunda detonación y vio que uno de los centinelas aún tenía el fusil al hombro: de la boca del caño subía una ligera nube de humo azul. El hombre en el río vio los ojos del hombre en el puente que se detenían en los suyos a través de la mira del fusil. Al observar que los ojos del centinela eran grises, recordó haber leído que los ojos grises eran muy penetrantes, que todos los tiradores famosos tenían ojos de ese color. Sin embargo, aquél no había dado en el blanco.
Un remolino lo hizo girar en sentido contrario; de nuevo tenía a la vista el bosque que cubría la orilla opuesta al fortín. Una voz clara resonó tras él en una cadencia monótona, y llegó a través del agua con tanta nitidez que dominó y apagó todo otro ruido, hasta el chapoteo de las olitas en sus orejas. Sin ser soldado, había frecuentado bastante los campamentos para conocer la terrible significación de aquella lenta, arrastrada, aspirada salmodia: en la orilla, el oficial cumplía su labor matinal. Con qué frialdad implacable, con qué tranquila entonación que presagiaba la calma de los soldados y les imponía la suya, con qué precisión en la medida de los intervalos, cayeron estas palabras crueles:
- ¡Atención, compañía!... ¡Armas al hombro!...¡Listos!... ¡Apuntar!... ¡Fuego!...
Farkuhar se hundió, se hundió tan profundamente como pudo. El agua gruñó en sus oídos como la voz del Niagara. Escuchó sin embargo el trueno ensordecido de la salva y, mientras subía a la superficie, encontró pedacitos de metal brillante, extrañamente chatos, oscilando hacia abajo con lentitud. Algunos le tocaron el rostro y las manos, después continuaron descendiendo. Uno de ellos se alojó entre su pescuezo y el cuello de la camisa: era de un calor desagradable y Farkuhar lo arrancó vivamente.
Cuando llegó a la superficie, sin aliento, comprobó que había permanecido mucho tiempo bajo el agua, la corriente lo había arrastrado muy lejos -cerca de la salvación. Los soldados casi habían terminado de cargar nuevamente sus armas; las baquetas de metal centellearon al sol, mientras los hombres las sacaban del caño de sus fusiles y las hacían girar en el aire antes de ponerlas en su lugar. Otra vez tiraron los centinelas y otra vez erraron el blanco.
El perseguido vio todo esto por arriba del hombro. Ahora nadaba con energía a favor de la corriente. Su cerebro no era menos activo que sus brazos y sus piernas; pensaba con la rapidez del relámpago.
"El teniente -razonaba- no cometerá este error por segunda vez. Es el error propio de un oficial demasiado apegado a la disciplina. ¿Acaso no es tan fácil esquivar una salva como un solo tiro? Ahora, sin duda, ha dado orden de tirar como quieran. ¡Dios me proteja, no puedo escaparles a todos!"
A dos yardas hubo el atroz estruendo de una caída de agua seguido de un ruido sonoro, impetuoso, que se alejó diminuendo y pareció propagarse en el aire en dirección al fortín donde murió en una explosión que sacudió las profundidades mismas del río. Se alzó una muralla líquida, se curvó por encima de él, se abatió sobre él, lo encegueció, lo estranguló. ¡El cañón se había unido a las demás armas! Como sacudiera la cabeza para desprenderla del tumulto del agua herida por el obus, oyó que el proyectil, desviado de su trayectoria, roncaba en el aire delante de él y segundos después hacía pedazos las ramas de los arboles, allí cerca, en el bosque.
"No empezaran de nuevo -pensó-. La próxima vez cargarán con metralla. Debo mantener los ojos fijos en la pieza: el humo me indicará. La detonación llega demasiado tarde; se arrastra detrás del proyectil. Es un buen cañón".
De pronto se sintió dar vueltas y vueltas en el mismo punto. Giraba como un trompo: el agua, las orillas, el bosque, el puente, el fortín y los hombres ahora lejanos, todo se mezclaba y se esfumaba. Los objetos ya no estaban representados sino por sus colores; bandas horizontales de color era todo lo que veía. Atrapado por un remolino, avanzaba con un movimiento circulatorio tan rápido que se sentía enfermo de vértigo y náuseas. Momentos después se encontró arrojado contra la orilla izquierda del río -la orilla austral- detrás de un montículo que lo ocultaba e sus enemigos. Su inmovilidad súbita, el roce de una de sus manos contra el pedregullo, le devolvieron el uso de sus sentidos y lloró de alegría. Hundió los dedos en la arena que se echó a puñados sobre el cuerpo bendiciéndola en alta voz. Para él era diamantes, rubíes, esmeraldas; no podía pensar en nada hermoso que no se le pareciera. Los arboles de la orilla eran gigantescas plantas de jardín; advirtió un orden determinado en su disposición; respiró el perfume de sus flores. Una luz extraña, rosada, brillaba entre los troncos, y el viento producía en su follaje la música armoniosa de una arpa eolea. No deseaba terminar de evadirse; le bastaba quedarse en ese lugar encantador hasta que lo capturaran.
El silbido y el estruendo de la metralla en las ramas por encima de su cabeza lo arrancó de su ensueño. El artillero, decepcionado le había enviado al azar una descarga de adiós. Se levantó de un salto, remontó precipitadamente la pendiente de la orilla, se internó en el bosque.
Caminó todo aquél día, guiándose por la marcha del sol. El bosque parecía interminable; por ninguna parte un claro, ni siquiera el sendero de un leñador. Había ignorado que viviera en una región tan salvaje, y había en esta revelación algo sobrenatural.
Continuaba avanzando al caer la noche, con los pies heridos, fatigado, hambriento. Lo sostenía el pensamiento de su mujer y de sus hijos. Terminó por encontrar un camino que lo conducía en la buena dirección. Era tan ancho y recto como una calle urbana, y sin embargo daba la impresión de que nadie hubiese pasado por él. Ningún campo lo bordeaba; por ninguna parte una vivienda. Nada, ni siquiera el aullido de un perro sugería una habitación humana. Los cuerpos negros de los grandes arboles formaban dos murallas rectilíneas que se unían en un solo punto del horizonte, como un diagrama en una lección de perspectiva. Por encima de él, como alzara los ojos a través de aquella brecha en el bosque, vio brillar grandes estrellas de oro que no conocía, agrupadas en extrañas constelaciones. Tuvo la certeza de que estaban dispuestas de acuerdo con un orden que ocultaba un maligno significado. De cada lado del bosque le llegaban ruidos singulares entre los cuales, una vez, dos veces, otra vez aún, percibió nítidamente susurros en una lengua desconocida.
Le dolía el cuello; al tocárselo, lo encontró terriblemente inchado, sabía que la cuerda lo había marcado con un círculo negro: tenía los ojos congestionados; no lograba cerrarlos. Tenía la lengua hinchada por la sed; sacándola entre los dientes y exponiéndola al aire fresco apaciguó su fiebre. Qué suave tapiz había extendido el césped a lo largo de aquella avenida virgen. Ya no sentía el suelo bajo los pies.
A despecho de sus sufrimientos, sin duda, se ha dormido mientras camina, porque ahora contempla otra escena -tal vez acaba de salir de una crisis delirante. Se encuentra ante la verja de su casa. Todo está como lo ha dejado, todo resplandece de belleza bajo el sol matinal. Ha debido de caminar la noche entera. Mientras abre la puerta de la verja y asciende por la gran avenida blanca, ve flotar ligeras vestiduras: su mujer, con el rostro fresco y dulce, baja de la galería y le sale al encuentro, deteniéndose al pie de la escalinata con una sonrisa de inefable júbilo, en una actitud de gracia y dignidad inigualables. ¡Ah, cómo es de hermosa! El se lanza en su dirección, los brazos abiertos. En el instante mismo que va a estrecharla contra su pecho, siente en la nuca un golpe que lo aturde. Una luz blanca y enceguecedora flamea a su alrededor con un ruido semejante al estampido del cañón -y después todo es tinieblas y silencio.
Peyton Frakuhar estaba muerto. Su cuerpo, con el cuello roto, se balanceaba suavemente de uno a otro extremo de las maderas del puente del Buho.

_Bierce, Ambrose-de Cuentos de Soldados y Civiles_

                      'Occurrence at Owl Creek Bridge' - Based on the Ambrose Bierce short.